8# MUNDO 30.4.14

A GUERRA POR UM FIO
Confrontos entre separatistas pr-Rssia e soldados de Kiev se aprofundam na Ucrnia, aumentam a instabilidade na regio e colocam o pas no caminho do conflito armado
Mariana Queiroz Barboza (mariana.barboza@istoe.com.br)

O aperto de mos entre os ministros das relaes exteriores de Rssia, Ucrnia, Estados Unidos e Unio Europeia em Genebra, na Sua, parecia indicar que os pases envolvidos na crise ucraniana caminhavam para um consenso. A calmaria, porm, no durou nem uma semana. Apesar de o acordo assinado na quinta-feira 17 prever o desarmamento de grupos ilegais concentrados no leste do pas (onde a maioria da populao tem origem russa), a atuao das milcias s cresceu. Em cidades como Lugansk, Donetsk e Slaviansk, diversos prdios pblicos foram ocupados por separatistas e militantes pr-Rssia, que criaram tambm postos de controle vigiados por homens armados. Considerados terroristas pelo governo provisrio de Kiev, os milicianos foram acusados de torturar e assassinar. Entre suas vtimas, estaria o poltico Vladimir Ribak, do mesmo partido do presidente Alexander Turchinov. Ao menos oito jornalistas foram detidos. Esses crimes so cometidos com apoio e conivncia da Rssia, disse Turchinov, que colocou o exrcito na rua para retomar o controle nos redutos insurgentes. No dicionrio oficial, a iniciativa foi chamada de operao antiterrorismo, mas, na boca dos separatistas, tornou-se operao de extermnio.

VIOLNCIA - Soldados ucranianos ameaam manifestantes pr-Rssia e separatistas detm jornalista

Na quinta-feira 24, quando cinco rebeldes foram mortos por militares (segundo informaes divulgadas pelo Ministrio do Interior da Ucrnia, mas contestadas pelos separatistas), cresceram os temores de que a escalada da violncia pudesse culminar numa guerra civil. Panfletos distribudos pelo governo em Slaviansk pediam aos moradores que permanecessem dentro de casa, de acordo com a imprensa local. Se o atual regime de Kiev comeou realmente a utilizar o exrcito contra a populao do pas,  um crime muito grave contra seu prprio povo, disse o presidente russo, Vladimir Putin. No mesmo dia, ele deu incio a exerccios militares entre suas mais de 40 mil tropas prximas  fronteira com a Ucrnia, em terra e no ar. Os EUA e a Otan, aliana militar ocidental, tambm encaminharam soldados para manobras na regio, na Polnia, nos pases blticos e no Mar Negro.

Em entrevista ao jornal britnico The Guardian, o especialista em defesa Alexei Melnik alertou para a quantidade enorme de armas de fogo guardadas sob a mina de sal de Volodarski, a cerca de 40 quilmetros de Slaviansk. Estima-se que os manifestantes que guardam a entrada do local tenham acesso a mais de um milho de armas pesadas que datam da Primeira Guerra Mundial e da Era Sovitica. Se tantas armas carem nas mos de separatistas, isso seria uma catstrofe, disse Melnik. Andreas Umland, especialista em histria contempornea de Rssia e Ucrnia e professor da Universidade Nacional de Kiev-Mohyla,  ctico quanto ao incio de uma guerra civil.  mais provvel que vejamos a repetio de uma interveno russa como a da Osstia do Sul, em 2008, disse  ISTO. Na ocasio, Moscou foi acusada de fornecer armas aos separatistas e entrou em confronto com a Gergia. Para evitar isso, os EUA ameaaram impor novas sanes econmicas  Rssia, mas o prprio presidente Barack Obama ponderou: Sei que sanes adicionais podem no mudar o clculo de Putin.

A proximidade das eleies presidenciais, marcadas para 25 de maio, vem acompanhada de pelo menos dois referendos locais. No dia 11, os cidados de Lugansk votaro por sua autonomia e, uma semana depois, decidiro se devem se juntar  Federao Russa, a exemplo do que a Crimeia fez em maro. At hoje, porm, o Ocidente no reconhece a anexao da Crimeia. O compromisso acertado em Genebra de anistiar os manifestantes pr-Rssia, promover uma reforma constitucional que respeite as minorias e estabelecer a paz ficou apenas no plano terico.
